Com o avanço de iniciativas de responsabilidade social no setor empresarial brasileiro, tornou-se comum ver empresas associando sua marca a causas sociais. O que diferencia o Projeto Visão em Dia desse movimento é que a iniciativa não nasceu de uma estratégia de comunicação corporativa. Nasceu de Franco Douglas Lima Dias, empresário que transformou uma experiência pessoal de invisibilidade dentro do sistema de saúde em um programa que já ultrapassou 5 mil atendimentos em escolas e instituições da rede pública.
A distinção importa porque ela explica a forma como o projeto foi construído. Não há um produto sendo vendido, não há uma marca sendo promovida e não há um público consumidor sendo alcançado. Há crianças que precisam de exames oftalmológicos gratuitos e um programa que vai até elas. A lógica é anterior a qualquer cálculo de retorno de imagem.
O que motivou Franco Douglas Lima Dias a construir essa estrutura está na própria história que ele carrega.
De que experiência pessoal nasceu o projeto?
Franco Douglas Lima Dias cresceu com problemas visuais não diagnosticados. Chegou à adolescência com quase dez graus de miopia, sem que ninguém ao redor tivesse identificado o problema. Com o tempo, desenvolveu ceratocone, doença degenerativa da córnea que avança de forma silenciosa e que, quando detectada tardiamente, deixa sequelas que não se revertem. A experiência de ter passado anos sem diagnóstico e sem correção moldou sua compreensão sobre o que significa depender de um sistema que não chega até você.
Como elucida o próprio percurso do programa, a decisão de criar o Projeto Visão em Dia partiu desse entendimento direto. “Essa necessidade virou um propósito”, disse o idealizador em entrevista sobre a iniciativa. “A ideia é ajudar as crianças e fazer um trabalho preventivo para que elas não passem pelo que eu passei na infância.”
O que um empresário traz de diferente para a gestão de um projeto social?
A experiência de gerir um negócio private desenvolve competências que projetos sociais frequentemente precisam e raramente encontram: capacidade de estruturar processos, de escalar operações e de manter consistência ao longo do tempo. No caso do Projeto Visão em Dia, essas competências se traduzem em um programa que não opera de forma improvisada.

O modelo adotado pelo Instituto Visão Conectada, organização por meio da qual Franco Douglas Lima Dias estruturou o programa, combina triagem individualizada, entrega de correção no mesmo momento e expansão gradual para novas unidades de ensino. Cada decisão operacional reflete o entendimento de quem sabe que um projeto que não se sustenta ao longo do tempo não resolve o problema que se propõe a atacar.
Como o projeto chegou às APAEs e o que encontrou lá?
A expansão do Projeto Visão em Dia para instituições como a APAE de Ferraz de Vasconcelos foi uma consequência do crescimento do programa e da evidência de que havia um público com barreiras de acesso ainda maiores aguardando atendimento. Na ação realizada naquela instituição, dois alunos foram diagnosticados com ceratocone e 18 óculos foram entregues a estudantes que não tinham condições financeiras de pagar uma consulta.
A diretora da APAE, Lara Benute, resumiu o impacto com precisão: “Nossa APAE realmente precisa de ajuda.” Para Franco Douglas Lima Dias, a chegada do programa a esse tipo de instituição representa a extensão natural de um propósito que sempre foi o mesmo: chegar onde o acesso não existe.
O que o investimento de um empresário em saúde ocular revela sobre lacunas do poder público?
A existência de um programa como o Projeto Visão em Dia é, entre outras coisas, um indicativo de onde o Estado ainda não chegou. Se houvesse triagem visual sistemática nas escolas públicas brasileiras, a demanda que o programa encontra em cada nova ação já estaria sendo atendida por uma estrutura permanente. O fato de que mais de 5 mil atendimentos foram necessários para alcançar um público que estava sem diagnóstico não é apenas um dado sobre o programa. É um dado sobre o sistema.
Segundo a avaliação de Franco Douglas Lima Dias, o objetivo do Visão em Dia não é substituir o que o poder público deveria oferecer. É garantir que, enquanto essa estrutura não existe de forma ampla, as crianças que mais precisam não fiquem esperando por ela.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

